Possibilidade do Sentir
21.2.04
 
Não se pense que um silêncio de quase um mês se deve ao meu afastamento destas lides. Desenganem-se. Deveu-se a motivos profissionais e a um balanço do incómodo que, por motivos desconhecidos, a minha presença aqui parece provocar a tanta gente. A uns pelo que digo, a outros pelo que sou ou não sou, a todos pelo que penso. Será que há motivo para tanto?


Espero mais serenidade daqui em diante. Para o bem comum.
31.1.04
 
O tão falado "Lost in Translation", terceiro filme de Sofia Coppola e segundo a conhecer grande sucesso, é sem dúvida um bom filme. Mas fica-se por aí. Escapa à mediocridade da maior parte do cinema que hoje nos chega dos Estados Unidos e pouco mais. Scarlet Johansson tem uma grande carreira à frente e, felizmente, tem tempo para desenvolver os seus dotes dramáticos que por enquanto deixam muito a desejar. Bill Murray é das piores coisas que o filme tem. Um actor cómico (e dos piores) a tentar mudar para um registo dramático, possivelmente em busca de um relançamento da carreira, não vai além de produzir um espectáculo confrangedor que vai fazendo rir mas pelas razões erradas. Se em "As Virgens Sucidas" o espectador saía da sala de cinema quase "violentado" pela crueza da feminilidade crua e adolescente das protagonistas, neste "Lost in Translation" fica-se com uma desagradável sensação de vazio negativista. É muito fácil para um realizador disfarçar deficiências do argumento com questões deixadas em aberto, com metáforas pouco claras, com palavras que ficam por dizer. Mas e a verbalidade racional intrínseca que fez do cinema moderno aquilo que hoje é? Espera-se que o próximo filme de Sofia seja melhor. E, de preferência, sem sussurros finais em jeito de tentativa de negação de uma interpretação e racionalização da narrativa e dos aspectos plásticos da obra que será sempre, e simultaneamente, inevitável e desejável. O ridículo a que são expostos os japoneses e a sua cultura milenar também se dispensavam.
27.1.04
 
Impressionam-me os gatos. Parecem-me sempre os mais ensimesmados de todos os mamíferos com os focinhos altivos e aqueles olhos de quem espera algo que não alcançará tão cedo. Em criança, experiência partilhada por multidões incontáveis por esse mundo fora, tive um gato. Chamei-lhe Leonardo. Na altura não achei explicação para o nome, pareceu-me apropriado e pouco mais. Hoje, à luz de uma maturidade entretanto adquirida à custa de alguns sacrifícios, os do costume, percebo que era uma homenagem a priori ao grande génio da Renascença que foi Leonardo da Vinci. E o Leonardo, o meu, mais modesto de barbas do que o seu homónimo famoso, não deixava de exalar aquela aura de encantamento quase místico pelo saber do seu pequeno mundo felídeo.
25.1.04
 
Não deixa de ter alguma graça que tanta gente se insurja contra a minha apreciação puramente estética da Odisseia na edição original em grego (língua que desconheço) e não veja qualquer problema numa tendência recente de vários bloggers ilustres para citar poemas de Kavafis em português e, ao mesmo tempo, na língua em que foram escritos. Estará a blogoesfera repleta de helenistas ilustres ou é só dualidade de critérios voltada contra uma recém-chegada?
24.1.04
 
Já me vou habituando a ser polémica, por isso, não tenho motivo algum para recear críticas por dizer o que sinto, venham elas de onde vierem. Ir ao cinema neste país tem-se tornado uma experiência gradualmente mais enriquecedora ao longo dos últimos anos com a diversificação crescente dos títulos e a opção feita por muitas salas por um cinema de qualidade (europeu, asiático e africano) em deterimento de um cinema comercial e banal (americano-sem esquecer os filmes de qualidade que o cinema americano independente produz). Para que essa experiência fosse perfeita, a meu ver, seria necessário que os proprietário das salas tivessem a coragem de tomar uma decisão que será sempre polémica mas que se torna inevitável. Em algumas salas, penso no King ou no Nimas, por exemplo, vive-se um ambiente em que quase é possível respirar o gosto pelo cinema dos que as frequentam. Trata-se de salas que se assumem como espaços para cinéfilos pelos filmes que exibem. No entanto, outras salas existirão que bastardizam um conceito à partida nobre e misturam de forma inexplicável e anti-natura o cinema de autor com o cinema comercial do pior que se faz no mundo. Como resultado, alguém que se desloca a um destes espaços para apreciar um bom filme acaba por ver os seus sentidos devassados por comportamentos desagradáveis de pessoas que ali estão como poderiam estar em casa a ver uma telenovela, num estádio de futebol ou participando noutra qualquer forma de diversão mais "popular." E digo isto não motivada por quaisquer instintos classistas (eu própria sou uma mulher do povo) mas depois de ter passado pessoalmente por momentos desagradáveis. Recentemente, desloquei-me ao cinema multiplex de uma grande superfície comercial lisboeta das que costumam misturar géneros da forma que atrás referi. Fi-lo apenas porque o filme em questão já não se encontrava em exibição noutra sala mais selecta. Fui empurrada, pisada e tratada de um modo absolutamente decadente pelos frequentadores habituais do espaço. Quando expressei verbalmente o meu descontentamento, fui insultada e achei melhor desistir do filme até porque, de qualquer forma, não me conseguiria concentrar no écran. Deixo a questão: Para quando uma separação absoluta dos públicos?

Mais uma vez obrigado a todos os que me têm enviado palavras de apoio e peço desculpa por não ter respondido. Aos outros, as melhoras.
23.1.04
 
Bárbara Guimarães partilha a sua beleza maternal com o mundo nas páginas da revista Vogue de Fevereiro. A não perder um exemplo comovente de evocação da figura primordial da deusa-mãe transposta para os dias de hoje.
21.1.04
 
Parece que isto, isto e isto se têm sentido algo incomodados com a minha participação na blogoesfera modesta e limitada por compromissos sociais e profissionais de quem tem uma vida "lá fora." Nem sei o que diga, se é que vale a pena dizer alguma coisa.

Tolkien é um autor menor. Digo-o sem quaisquer hesitações. Tenha os adeptos incondicionais que tiver (e são muitos até num país pouco dado a leituras como o nosso a julgar pela quantidade de impropérios com que me encheram a caixa de correio), isso não faz dele mais do que um escritorzeco de contos de fadas desprovidos da contextualização mítico-social que confere validade a esse género literário. De qualquer forma, fico positivamente satisfeita por ver que, afinal, há portugueses que lêem fora das classes ditas "intelectuais." Que leiam Tolkien, Harry Potter ou o Homem-Aranha tanto se me dá. Pelo menos, é um princípio e pode ser que um dia venham a descobrir o gosto pela literatura a sério.

Quanto às críticas dirigidas ao "Magazine" e à 2:, para evitar polémicas desnecessárias, basta-me dizer que nem um, nem a outra têm como público alvo os autores das críticas. Por isso, para quê perderem tempo com coisas que não vos interessam e que não compreenderão de qualquer maneira? Não será por falta de canais com o tipo de programação que vos agrada com certeza.

E estou aqui para ficar. Podem ter a certeza disso. Com polémicas ou sem elas. Citando o grande Honoré de Balzac, "Les existences faibles vivent dans les douleurs, au lieu de les changer en apophtegmes d'expérience, elles s'en saturent, et s'usent en rétrogradant chaque jour dans les malheurs consommés."

Uma palavra de apreço sentida para todos aqueles que me enviaram e-mails de apoio e incentivo e a que não tive tempo de responder. Espero fazê-lo em breve.

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