Possibilidade do Sentir
31.1.04
 
O tão falado "Lost in Translation", terceiro filme de Sofia Coppola e segundo a conhecer grande sucesso, é sem dúvida um bom filme. Mas fica-se por aí. Escapa à mediocridade da maior parte do cinema que hoje nos chega dos Estados Unidos e pouco mais. Scarlet Johansson tem uma grande carreira à frente e, felizmente, tem tempo para desenvolver os seus dotes dramáticos que por enquanto deixam muito a desejar. Bill Murray é das piores coisas que o filme tem. Um actor cómico (e dos piores) a tentar mudar para um registo dramático, possivelmente em busca de um relançamento da carreira, não vai além de produzir um espectáculo confrangedor que vai fazendo rir mas pelas razões erradas. Se em "As Virgens Sucidas" o espectador saía da sala de cinema quase "violentado" pela crueza da feminilidade crua e adolescente das protagonistas, neste "Lost in Translation" fica-se com uma desagradável sensação de vazio negativista. É muito fácil para um realizador disfarçar deficiências do argumento com questões deixadas em aberto, com metáforas pouco claras, com palavras que ficam por dizer. Mas e a verbalidade racional intrínseca que fez do cinema moderno aquilo que hoje é? Espera-se que o próximo filme de Sofia seja melhor. E, de preferência, sem sussurros finais em jeito de tentativa de negação de uma interpretação e racionalização da narrativa e dos aspectos plásticos da obra que será sempre, e simultaneamente, inevitável e desejável. O ridículo a que são expostos os japoneses e a sua cultura milenar também se dispensavam.
27.1.04
 
Impressionam-me os gatos. Parecem-me sempre os mais ensimesmados de todos os mamíferos com os focinhos altivos e aqueles olhos de quem espera algo que não alcançará tão cedo. Em criança, experiência partilhada por multidões incontáveis por esse mundo fora, tive um gato. Chamei-lhe Leonardo. Na altura não achei explicação para o nome, pareceu-me apropriado e pouco mais. Hoje, à luz de uma maturidade entretanto adquirida à custa de alguns sacrifícios, os do costume, percebo que era uma homenagem a priori ao grande génio da Renascença que foi Leonardo da Vinci. E o Leonardo, o meu, mais modesto de barbas do que o seu homónimo famoso, não deixava de exalar aquela aura de encantamento quase místico pelo saber do seu pequeno mundo felídeo.
25.1.04
 
Não deixa de ter alguma graça que tanta gente se insurja contra a minha apreciação puramente estética da Odisseia na edição original em grego (língua que desconheço) e não veja qualquer problema numa tendência recente de vários bloggers ilustres para citar poemas de Kavafis em português e, ao mesmo tempo, na língua em que foram escritos. Estará a blogoesfera repleta de helenistas ilustres ou é só dualidade de critérios voltada contra uma recém-chegada?
24.1.04
 
Já me vou habituando a ser polémica, por isso, não tenho motivo algum para recear críticas por dizer o que sinto, venham elas de onde vierem. Ir ao cinema neste país tem-se tornado uma experiência gradualmente mais enriquecedora ao longo dos últimos anos com a diversificação crescente dos títulos e a opção feita por muitas salas por um cinema de qualidade (europeu, asiático e africano) em deterimento de um cinema comercial e banal (americano-sem esquecer os filmes de qualidade que o cinema americano independente produz). Para que essa experiência fosse perfeita, a meu ver, seria necessário que os proprietário das salas tivessem a coragem de tomar uma decisão que será sempre polémica mas que se torna inevitável. Em algumas salas, penso no King ou no Nimas, por exemplo, vive-se um ambiente em que quase é possível respirar o gosto pelo cinema dos que as frequentam. Trata-se de salas que se assumem como espaços para cinéfilos pelos filmes que exibem. No entanto, outras salas existirão que bastardizam um conceito à partida nobre e misturam de forma inexplicável e anti-natura o cinema de autor com o cinema comercial do pior que se faz no mundo. Como resultado, alguém que se desloca a um destes espaços para apreciar um bom filme acaba por ver os seus sentidos devassados por comportamentos desagradáveis de pessoas que ali estão como poderiam estar em casa a ver uma telenovela, num estádio de futebol ou participando noutra qualquer forma de diversão mais "popular." E digo isto não motivada por quaisquer instintos classistas (eu própria sou uma mulher do povo) mas depois de ter passado pessoalmente por momentos desagradáveis. Recentemente, desloquei-me ao cinema multiplex de uma grande superfície comercial lisboeta das que costumam misturar géneros da forma que atrás referi. Fi-lo apenas porque o filme em questão já não se encontrava em exibição noutra sala mais selecta. Fui empurrada, pisada e tratada de um modo absolutamente decadente pelos frequentadores habituais do espaço. Quando expressei verbalmente o meu descontentamento, fui insultada e achei melhor desistir do filme até porque, de qualquer forma, não me conseguiria concentrar no écran. Deixo a questão: Para quando uma separação absoluta dos públicos?

Mais uma vez obrigado a todos os que me têm enviado palavras de apoio e peço desculpa por não ter respondido. Aos outros, as melhoras.
23.1.04
 
Bárbara Guimarães partilha a sua beleza maternal com o mundo nas páginas da revista Vogue de Fevereiro. A não perder um exemplo comovente de evocação da figura primordial da deusa-mãe transposta para os dias de hoje.
21.1.04
 
Parece que isto, isto e isto se têm sentido algo incomodados com a minha participação na blogoesfera modesta e limitada por compromissos sociais e profissionais de quem tem uma vida "lá fora." Nem sei o que diga, se é que vale a pena dizer alguma coisa.

Tolkien é um autor menor. Digo-o sem quaisquer hesitações. Tenha os adeptos incondicionais que tiver (e são muitos até num país pouco dado a leituras como o nosso a julgar pela quantidade de impropérios com que me encheram a caixa de correio), isso não faz dele mais do que um escritorzeco de contos de fadas desprovidos da contextualização mítico-social que confere validade a esse género literário. De qualquer forma, fico positivamente satisfeita por ver que, afinal, há portugueses que lêem fora das classes ditas "intelectuais." Que leiam Tolkien, Harry Potter ou o Homem-Aranha tanto se me dá. Pelo menos, é um princípio e pode ser que um dia venham a descobrir o gosto pela literatura a sério.

Quanto às críticas dirigidas ao "Magazine" e à 2:, para evitar polémicas desnecessárias, basta-me dizer que nem um, nem a outra têm como público alvo os autores das críticas. Por isso, para quê perderem tempo com coisas que não vos interessam e que não compreenderão de qualquer maneira? Não será por falta de canais com o tipo de programação que vos agrada com certeza.

E estou aqui para ficar. Podem ter a certeza disso. Com polémicas ou sem elas. Citando o grande Honoré de Balzac, "Les existences faibles vivent dans les douleurs, au lieu de les changer en apophtegmes d'expérience, elles s'en saturent, et s'usent en rétrogradant chaque jour dans les malheurs consommés."

Uma palavra de apreço sentida para todos aqueles que me enviaram e-mails de apoio e incentivo e a que não tive tempo de responder. Espero fazê-lo em breve.
11.1.04
 
O Carlos V. enviou-me este poema do grande Guerra Junqueiro com a dedicatória "para ti, Anabela." O gesto terno e caloroso merece ser partilhado com mais almas sensíveis à beleza. Aqui fica:

Eu não te tenho amor simplesmente. A paixão
Em mim não é amor; filha, é adoração!
Nem se fala em voz baixa à imagem que se adora.


Quando da minha noite eu te contemplo, aurora,
E, estrela da manhã, um beijo teu perpassa
Em meus lábios, oh! quando essa infinita graça
do teu piedoso olhar me inunda, nesse instante
Eu sinto - virgem linda, inefável, radiante,
Envolta num clarão balsâmico da lua,
A minh'alma ajoelha, trémula, aos pés da tua!
Adoro-te!...Não és só graciosa, és bondosa:
Além de bela és santa; além de estrela és rosa.
Bendito seja o Deus, bendita a Providência
Que deu o lírio ao monte e à tua alma a inocência,
O Deus que te criou, anjo, para eu te amar,
E fez do mesmo azul o céu e o teu olhar!...


Guerra Junqueiro (1850 - 1923)

 
O balanço dos primeiros dias de vida da 2: são bastante positivos. Creio que têm motivo para retirar tudo o que disseram os críticos a priori do novo canal que sempre esperaram (e anunciaram) o pior. Ao invés, temos um canal com uma programação de qualidade e variada que não deixa ninguém de fora. Todas as artes estão representadas. Todas as correntes do pensar e do sentir encontrarão alguma coisa que satisfaça. Não andarei muito longe se disser que esta 2: é, provavelmente, o melhor canal de televisão do mundo (ou um dos).
5.1.04
 
Inaugura-se hoje um novo período na história da televisão em Portugal. Começam as emissões da 2, um novo canal, uma televisão com cidadania e para a cidadania. Um canal como Portugal precisava há muito e o canal em que sempre quis trabalhar. Lá estarei para dar o meu contributo em prol da transformação deste país em que vivemos no pólo de cultura que nós, os que lêem, discutem, se maravilham com as artes e se preocupam reflectindo, merecemos.

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